sábado, 31 de março de 2007

POLINIZAÇÃO DE MACIEIRAS EM SANTA CATARINA

A POLINIZAÇÃO DE MACIEIRAS NO ESTADO DE SANTA CATARINA
James Arruda Salomé. Biólogo. MSc em Recursos Genéticos Vegetais

A macieira foi introduzida no Estado de Santa Catarina – Brasil, no ano de 1940, sendo os primeiros pomares implantados com a cultivar Reinette, originária do Canadá. O cultivo se restringiu às pequenas e médias propriedades até o inicio da década de 70, quando a pomicultura catarinense teve grande impulso, consolidando este Estado como maior produtor brasileiro de maçãs (Santos, 1994). Na safra 2001/2002, a área plantada no Estado de Santa Catarina foi de 16.779 hectares, com volume de produção de 474.516 toneladas de frutos, com produtividade de 28, 28 toneladas de frutos por hectar. O custo médio por hectar de macieira está em torno de US $ 2.253,00, que perfaz um lucro total de US $ 93.995.58,00 (ABPM, 2002).
Atualmente os pomares catarinenses estão passando por um processo de renovação, sendo que as principais cultivares plantadas são Gala, Fuji e Golden, com respectivamente 46%, 45% e 6% do total da área plantada.
As flores de macieira possuem estames e estigmas em posição e amadurecimento, que favorecem a simples queda do pólen por gravidade para ocorrer à fecundação dos óvulos; porem; isto não acontece, pois a proximidade de material genético entre as flores de uma mesma planta, e mesmo entre as flores de diferentes plantas da mesma cultivar, faz com que ocorra um aborto do tubo polínico, não havendo, portanto, a migração do núcleo germinativo do grão de pólen do estigma, passando pelo estilete e chegando ao ovário, onde ocorreria a fecundação dos óvulos e, conseqüentemente, a formação de sementes e frutos.
Na maioria das constatações, a macieira é auto-estéril, não sendo capaz de produzir sementes se receber pólen de flores de plantas da mesma cultivar (Salomé, 1999).
Ushirosawa (1978) menciona que mesmo as cultivares diplóides (a maioria delas) do grupo Delicious, como a Starkrimson, apresentam baixíssima taxa de auto fecundação. Em experimentos realizados em diversas cultivares, foram obtidas taxas de auto fecundação que variavam de 0% a 10%; todas apresentaram oito décimos a três sementes por fruto, contra cinco a oito sementes quando em polinização livre.
A semente estimula o desenvolvimento do tecido da maçã na sua vizinhança; um fruto com três sementes de um lado e nenhuma noutro será assimétrico (Childers, 1976). Para ocorrer boa frutificação efetiva da macieira são necessárias, no mínimo, quatro a seis sementes por fruto.
Para a produção comercial desta cultura, então, há necessidade de polinização cruzada, que é a transferência de grãos de pólen das anteras da flor de uma planta de determinada cultivar ao estigma da flor de uma planta de outro cultivar (exemplo: cultivar Gala e cultivar Fuji) (Salomé op. cit.).
Segundo Orth et al. (2000) a polinização da macieira é uma fase critica da exploração desta cultura. Falhas na frutificação efetiva das macieiras podem ter repercussão negativa no retorno financeiro do investimento. Além da quantidade de frutos produzidos, o tamanho destes e sua simetria dependem diretamente do número de sementes que são formadas no ovário, frutos de uma fertilização subseqüente a uma polinização, geralmente cruzada, ocorrida nas flores de macieira. Devido à importância na classificação final do fruto para o mercado consumidor, é natural que os frutos maiores e bem formados (simétricos) atinjam melhores preços, maximizando os lucros da comercialização.
Neste contexto, a polinização cruzada é de fundamental importância dentro do processo produtivo, devendo ser conduzida de maneira racional e eficaz, a fim de se alcançar altos índices de fertilização de flores e conseqüentemente, formação de sementes.
Uma boa polinização e fertilização de flores dependem de vários fatores. Em primeiro lugar devemos assegurar uma boa e uniforme floração dos pomares. O suprimento de pólen para que seja viabilizada a polinização cruzada também é importante. Neste sentido a cultivar polinizadora também deve apresentar floração abundante e estar presente em número suficiente no pomar. Além disto, deve ocorrer coincidência entre o período de floração das cultivares principais e polinizadoras. Devemos sempre lembrar que uma distribuição eqüitativa entre duas ou mais cultivares sempre é o melhor esquema de plantio para assegurar uma boa polinização, embora os produtores sempre procurem implantar pomares com maior densidade de uma determinada cultivar em relação às demais para facilitar as demais operações de manejo do pomar, bem como para plantar preferencialmente a cultivar que permita uma maior renda ao produtor.
As cultivares polinizadoras, além de apresentar floração abundante, também devem apresentar boa compatibilidade com as cultivares principais, bem como apresentar pólen com alto poder germinativo. A viabilidade do pólen pode ser testada “in vitro” através de metodologias relativamente padronizadas.
As condições climáticas podem afetar adversamente a polinização. Períodos chuvosos, frios e de muito vento podem diminuir a frutificação efetiva afetar adversamente a fisiologia reprodutiva da planta (Dennis, 1981) como também influir na atividade dos agentes polinizadores. Os tratamentos fitossanitários que são efetuados durante o período de floração também podem se constituir em entraves. Tanto os inseticidas como os herbicidas são letais aos polinizadores e por isto devem ser utilizados com o máximo de critério neste período. Já os fungicidas podem, possivelmente, afetar a germinação dos grãos de pólen na superfície estigmática da flor.
As flores de macieira apresentam características como a morfologia, coloração, fenologia e recursos florais típicos de flores polinizadas por abelhas e outros insetos. De um modo geral a flor da macieira apresenta características de flor de fácil visitação por inúmeros polinizadores. Em relação aos recursos florais, a flor não apresenta quantidade e/ou qualidade de néctar suficiente para viabilizar uma colheita de mel em colméias que forrageiam em nossos pomares, embora em outros países a flor de macieira tem sido considerada uma boa fonte de néctar para as abelhas (Free, 1993).
Inúmeros experimentos tem evidenciado que o comportamento da abelha por ocasião da visita à flor é importante para assegurar uma boa polinização cruzada. Primeiramente, é desejável que as abelhas se desloquem continuamente entre diferentes árvores para oportunizar melhor a deposição do grão de pólen certo sobre o estigma das flores. Uma diminuição dos recursos florais, obtido por exemplo, com o aumento de densidade de colméias nos pomares vai forçar as abelhas coletoras a um deslocamento mais retilíneo e portanto à um maior deslocamento entre árvores. Por ocasião da visita às flores, as abelhas coletoras de pólen são também mais eficientes polinizadoras do que as abelhas coletoras de néctar, pois sempre abordam a flor pelo topo, tocando os estigmas e anteras. Eventualmente as abelhas coletoras de néctar podem obter este recurso floral por um posicionamento lateral, sobre as pétalas, sem haver contato do corpo do inseto com as anteras e estigmas (Robinson, 1980).
As colméias racionais e padronizadas (modelo Lang.) que prestam serviços de polinização em macieiras no Estado de Santa Catarina são alugadas pelos pomicultores dos apicultores geralmente nos meses de Setembro e de Outubro, na quantidade de 50.337 colméias pelo valor de R$ 23,00 cada, sendo que a densidade média é de 3 colméias por hectar (2 colméias/ha na cultivar Fuji e 4colmeias/há na cultivar Gala).
É importante que estas colméias possuam rainhas com bom potencial de postura, populações de abelhas adultas suficientes para o desenvolvimento normal do ciclo de vida, assim como, grande capacidade de forrageamento pela presença de numerosas abelhas campeiras. Esta característica é observada em colméias que estejam com pelo menos 8 favos cobertos com abelhas adultas, e que também apresentem um grande volume de cria aberta. Nestas condições, há necessidade contínua de aporte de pólen para a produção de geléia real, afim de alimentar as larvas até o 3º dia de vida e produção de “pão de abelha” (mistura de mel e pólen) para alimentar as larvas a partir do 4º dia até o momento da operculação da célula (final do 6º dia de larva). É interessante prover reservas energéticas às colméias. Favos vazios, presentes no ninho, aumentam a tendência natural das abelhas campeiras forragearem a procura de néctar, diminuindo sensivelmente a procura por material protéico.
Um fator limitante na região que concentra os pomares de macieira é o frio na época de floração (Setembro e Outubro) que muitas vezes dificulta a atividade campeira das abelhas e, por conseguinte muitas vezes também enfraquece as colméias.
Embora muitas vezes, as horas-frio necessárias à quebra natural da dormência das plantas não seja alcançada naturalmente e devem ser utilizados tratamentos necessários para que inicie a floração, pode ocorrer antecipação da floração. Este é um fator que preocupa, pois, as colméias são transportadas aos pomares quando ainda não conseguiram alcançar suficiente grau de desenvolvimento populacional a partir das florações nativas regionais. Nas regiões com abundância de bracatinga (Mimosa scabrella) esta espécie supre a demanda inicial de pólen e néctar para o desenvolvimento das colméias após o inverno, desde que anteceda o suficiente, o período de floração da macieira.
Neste aspecto, às vezes, há necessidade de intervenção prévia nas colméias com o uso de rações protéicas estimulantes, suprindo assim as deficiências de pólen da florada nativa, antes do transporte das colméias aos pomares. Este manejo permite obter-se volumes satisfatórios de cria aberta, e principalmente de abelhas adultas novas, pois a população de campeiras que inicia o trabalho de coleta no inicio da primavera é aquela nascida no outono, e naturalmente estas abelhas com idade muitas vezes superior a 100 dias, morrem logo após os primeiros dias de atividade forrageira. É necessário para um satisfatório serviço de polinização que haja movimentação de abelhas campeiras sobre as flores de macieira na proporção de 8 a 12 abelhas no mínimo a cada trinta segundos.
Após as colméias atingirem níveis populacionais satisfatórios, chegou o momento de transporta-las aos pomares. Geralmente, as colméias devem ser transportadas aos pomares quando cerca de 20% das flores estiverem abertas. A introdução mais precoce das colméias nos pomares, incentiva as abelhas campeiras a procurarem outras fontes de alimento, muitas vezes mais atrativo, no entorno dos pomares como as vassouras (Baccharis spp.) e assim estabelecerem padrões de forrageamento que não inclui a visita às flores de macieiras.
A distribuição das colméias é feito em bloco, nas áreas mais baixas sobre suportes previamente instalados, para não ocorrer interferência dos ventos na atividade das colméias. Além disso, os blocos são colocados na posição central dos pomares, para evitar que as abelhas busquem facilmente alimentação na mata nativa no entorno dos pomares.
Atualmente o transporte é feito com tela de alvado com escape – abelha invertido, que permite o conforto do apicultor em fechar as colméias durante o dia, sem perda de abelhas campeiras. A partir do momento da colocação das telas que são fixadas com tiras de borracha para evitar que o material saia da sua posição original, demora-se cerca de uma hora e meia para o recolhimento de todas as abelhas campeiras.
O conjunto é fixado para não ocorrer vazamentos de abelhas durante o percurso e então é carregado e amarrado nas carrocerias dos veículos que farão o transporte.

Referencias bibliográficas.

Associação Brasileira dos Produtores de Maçã. Anuário Estatístico. 2002. Fraiburgo-SC.
Childers, N. F. Modern Fruit Science. 7°ed. New Jersey. Horticultural Publications. 1976. p. 128-145.
Dennis Jr., F. G. Factors Affecting Yeld in Apple, with Emphasis on Delicious. Hort. Rev. 3. 1981. p. 395-422.
Free, J. B. Insect Pollination of Crops. 2ºed. London. Academic Press. 1993. 684p.
Orth, A. I. ; Salomé, J. A. ; Chelli, F. Manejo das Abelhas em Pomares de Macieira. Fraiburgo. Anais do III° ENFRUTI. 2000. p.69-74.
Robinson, W. S. The Behavior of Honey Bees on “Delicious” Apple Blossoms. Ph.D. Thesis. Cornell University. 1980. 90p.
Salomé, J. A. Abelha na For, Previsão de Bons Frutos. Inform. Zum Zum. 33(291). 1999. p. 03.
Santos, L. W. Primórdios da Pesquisa com Maçã em Santa Catarina. Agrop. Catarinense. 7(3). 1994. p.20-22.
Ushirosawa, K. Cultura da Maçã: A experiência Catarinense. Florianópolis. EMPASC. 1978. 295p.

Um comentário:

Neusa Nazir disse...

E PARA QUEM QUER TER UM PÉ DE MAÇÃ PLANTADO EM CASA É NECESSÁRIO TER DOIS TIPOS DE CULTIVARES NO CASO UMA FUJI,GALA OU A GOLDEN É ISSO PARA QUE POSSA DAR FRUTOS? MUITO INTERESSANTE ESSA MATÉRIA SOBRE AS MACIEIRAS E A FUNDAMENTAL IMPORTÂNCIA DAS ABELHAS QUE POR FALTA DE CONHECIMENTO MUITAS PESSOAS IGNORAM ESSAS PEQUENINAS GUERREIRAS QUE TEM UM PAPEL FUNDAMENTAL NO PLANETA, NO ECOSSISTEMA.